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Estudo sobre a Natureza do Cristo

Autor: Allan Kardec

I - Fonte das provas da natureza do Cristo



A questão da natureza do Cristo foi debatida

desde os primeiros séculos do Cristianismo, e

pode-se dizer que não está ainda resolvida, uma

vez que ainda é discutida em nossos dias. Foi a

diferença de opinião sobre este ponto, que deu

nascimento à maioria das seitas que dividiram a

Igreja há dezoito séculos, e é notável que todos

os chefes dessas seitas foram bispos ou

membros do clero com diversos títulos. Por

consegüinte, eram homens esclarecidos, a

maioria escritores de talento, nutridos na ciência

teosófica, que não achavam concludentes as

razões evocadas em favor do dogma da

divindade do Cristo; não obstante, então como

hoje, as opiniões se formaram sobre abstrações,

mais do que sobre fatos, procurou-se,

sobretudo, o que o dogma poderia ter de

plausível ou de irracional, e, geralmente, se

negligenciou, de parte a parte, em fazer ressaltar

os fatos que poderiam lançar, sobre a questão,

uma luz decisiva.



Mas onde encontrar esses fatos se isso não for

nos atos e nas palavras de Jesus?



Jesus, nada tendo escrito, seus únicos

historiadores foram os apóstolos que, eles não

mais, nada escreveram quando vivos; não tendo

nenhuma história profana contemporânea falado

dele, não existe sobre a sua vida e a sua

doutrina, nenhum outro documento senão os

Evangelhos; portanto, é ali somente que é

necessário procurar a chave do problema. Todos

os escritos posteriores, sem disso excetuar os de

São Paulo, não são, e não podem ser, senão

comentários ou apreciações, reflexo de opiniões

pessoais, freqüentemente contraditórias, que não

poderiam, em nenhum caso, ter a autoridade do

relato daqueles que receberam as instruções

diretamente do Mestre.



Sobre essa questão, como sobre as de todos os

dogmas em geral, o acordo dos Pais da Igreja, e

outros escritores sacros, não poderia ser evocado

como argumento preponderante, nem como uma

prova irrecusável em favor de sua opinião, tendo

em vista que nenhum deles pôde citar um único

fato, fora do Evangelho, concernente a Jesus,

nenhum deles descobriu documentos novos

desconhecidos de seus predecessores.



Os autores sacros não puderam senão voltar

sobre o mesmo círculo, dar a sua apreciação

pessoal, tirar conseqüências de seu ponto de

vista, comentar sob novas formas, e com mais ou

menos desenvolvimento, as opiniões

contraditórias. Todos os do mesmo partido

deveram escrever no mesmo sentido, se não nos

mesmos termos, sob pena de serem declarados

heréticos, como o foram Orígenes e tantos

outros. Naturalmente, a Igreja não colocou, entre

seus Pais, senão os escritores ortodoxos do seu

ponto de vista; ela não exaltou, santificou e

colecionou senão aqueles que tomaram a sua

defesa, ao passo que rejeitou os outros e

destruiu os seus escritos tanto quanto possível.

O acordo entre os Pais da Igreja, portanto, nada

tem de concludente, uma vez que é uma

unanimidade de escolha formada pela eliminação

dos elementos contrários. Se se leva em

consideração tudo o que foi escrito pró e contra,

não se sabe muito de que lado penderia a

balança.



Isso nada tira ao mérito pessoal dos

sustentadores da ortodoxia, nem ao seu valor

como escritores e homens conscienciosos; foram

os advogados de uma mesma causa, que

defenderam com incontestável talento, e

deveriam, forçosamente, chegar às mesmas

conclusões. Longe de querer denegri-los, em

que quer que seja, quisemos simplesmente

refutar o valor das conseqüências que se

pretende tirar de seu acordo.



No exame que vamos fazer, da questão da

divindade do Cristo, pondo de lado as sutilezas

da escolástica que não serviram senão para

embrulhar em lugar de elucidar, nos apoiaremos

exclusivamente sobre os fatos que ressaltam do

texto do Evangelho, e que, examinados

friamente, conscienciosamente, sem idéia

preconcebida, fornecem superabundantemente

todos os meios de convicção que se possam

desejar. Ora, entre esses fatos, não há de mais

preponderante, nem de mais concludentes,

senão as palavras mesmas do Cristo, palavras

que não se saberia recusar sem infirmar a

veracidade dos apóstolos. Pode-se interpretar de

diferentes maneiras uma palavra, uma alegoria;

mas afirmações precisas, sem ambigüidade, cem

vezes repetidas, não poderiam ter um duplo

sentido. Nenhum outro, senão Jesus, pode

pretender saber melhor do que ele o que quis

dizer, como ninguém pode pretender estar

melhor informado do que ele sobre a sua própria

natureza: quando ele comenta as suas palavras, e

as explica, para evitar todo equívoco, deve-se

confiar nele, a menos lhe neguemos a

superioridade que se lhe atribui, e substituamos

a sua própria inteligência. Se foi obscuro em

certos pontos, quando se serviu de linguagem

figurada, sobre o que toca à sua pessoa não há

equívoco possível. Antes do exame das palavras,

vejamos os atos.



II. - A divindade do Cristo está provada pelos

milagres?



Segundo a Igreja, a divindade do Cristo está

estabelecida, principalmente pelos milagres,

como testemunho de um poder sobrenatural.

Esta consideração pôde ter um certo peso numa

época em que o maravilhoso era aceito sem

exame; mas hoje, que a ciência levou as suas

investigações até as leis da Natureza, os milagres

encontram mais incrédulos do que crentes; e o

que não contribuiu pouco para o seu descrédito,

foi o abuso das imitações fraudulentas e a

exploração que deles se fez. A fé nos milagres

foi destruída pelo próprio uso que dela se fez;

disso resultou que os do Evangelho são agora

considerados, por muitas pessoas, como

puramente legendários.



A Igreja, aliás, ela mesma, retira aos milagres

toda a sua importância, como prova da divindade

do Cristo, declarando que o demônio também

pode fazê-los tão prodigiosos quanto ele:

porque se o demônio tem um tal poder, fica

evidente que os fatos desse gênero não têm, de

nenhum modo, um caráter exclusivamente

divino; se ele pode fazer coisas admiráveis para

seduzir mesmo os eleitos, como simples mortais

poderiam distinguir os bons milagres dos maus,

e não há a temer que, vendo fatos similares, não

confundam Deus e Satanás?



Dar a Jesus um tal rival em habilidade era uma

grande falta de jeito; mas, pelo que respeita a

contradições e inconseqüências, não eram

olhadas de tão perto em uma época em que os

fiéis ter-se-iam feito um caso de consciência em

pensar por eles mesmos, e de discutir o menor

artigo imposto à sua crença; então, não se

contava com o progresso e não se pensava que o

reino da fé cega e ingênua, reino cômodo como o

do bel prazer, pudesse ter um termo. O papel,

tão preponderante que a Igreja se obstinou em

dar ao demônio, teve conseqüências desastrosas

para a fé, à medida que os homens se sentiram

capazes de ver pelos próprios olhos. O demônio,

que se explorou com sucesso durante um tempo,

tornou-se o machado posto ao velho edifício das

crenças, e uma das principais causas da

incredulidade; pode-se dizer que a Igreja, se

fazendo dele um auxiliar indispensável,

alimentou em seu seio aquele que deveria virar-

se contra ela e miná-la em seus fundamentos.



Uma outra consideração não menos grave, é que

os fatos miraculosos não são o privilégio

exclusivo da religião cristã: não há, com efeito,

uma religião idólatra ou pagã, que não teve os

seus milagres, tão maravilhosos e tão autênticos,

para os adeptos, quanto os do cristianismo. A

Igreja se tirou o direito de constatá-los,

atribuindo às potências infernais o poder de

produzi-los.



O caráter essencial do milagre, no sentido

teológico, é ser uma exceção nas leis da

Natureza, e, por consegüinte, inexplicável por

essas mesmas leis. Desde o instante que um fato

pode se explicar, e que se ligue a uma causa

conhecida, cessa de ser milagre. Assim é que as

descobertas da ciência fizeram entrar no domínio

do natural, certos efeitos qualificados de

prodígios enquanto a causa ficou ignorada. Mais

tarde, o conhecimento do princípio espiritual, da

ação dos fluidos sobre a economia, do mundo

invisível no meio do qual vivemos, das

faculdades da alma, da existência e das

propriedades do perispírito, deu a chave dos

fenômenos de ordem psíquica, e provou que não

são, não mais do que os outros, derrogações às

leis da Natureza, mas que, ao contrário, delas

são aplicações freqüentes. Todos os efeitos de

magnetismo, de sonambulismo, de êxtase, de

dupla vista, de hipnotismo, de catalepsia, de

anestesia, de transmissão do pensamento, de

presciência, de curas instantâneas, de

possessões, de obsessões, de aparições e de

transfigurações, etc., que constituem a quase

totalidade dos milagres do Evangelho, pertencem

a essa categoria de fenômenos.



Sabe-se agora que esses efeitos são o resultado

de aptidões e de disposições fisiológicas

especiais; que se produziram em todos os

tempos, entre todos os povos, e puderam ser

considerados como sobrenaturais sob o mesmo

título de todos aqueles cuja causa era

incompreendida. Isso explica por que todas as

religiões tiveram os seus milagres, que não são

outros senão os fatos naturais, mas quase

sempre amplificados ao absurdo pela

credulidade, a ignorância e a superstição, e que

os conhecimentos atuais reduziram ao seu justo

valor, permitindo levá-los em conta de lenda.



A possibilidade da maioria dos fatos que o

Evangelho cita como tendo sido realizados por

Jesus, está hoje completamente demonstrada

pelo Magnetismo e pelo Espiritismo, enquanto

fenômenos naturais. Uma vez que se produzem

sob os nossos olhos, seja espontaneamente, seja

por provocação, não há nada de anormal em que

Jesus possuísse faculdades idênticas às de

nossos magnetizadores, curadores, sonâmbulos,

videntes, médiuns, etc. Desde o instante que

essas mesmas faculdades se encontram, em

diferentes graus, numa multidão de indivíduos

que nada têm de divino, que são encontradas

mesmo entre os heréticos e os idólatras, elas não

implicam, em nada, uma natureza sobre-

humana.



Se Jesus qualificava, ele mesmo, os seus atos de

milagres, é que nisso, como em muitas outras

coisas, devia apropriar a sua linguagem aos

conhecimentos de seus contemporâneos; como

estes poderiam aprender uma nuança de palavra

que não é ainda compreendida por todo o

mundo? Para o vulgo, as coisas extraordinárias

que ele fazia, e que pareciam sobrenaturais,

naquele tempo e mesmo muito mais tarde, eram

milagres; não podia dar-lhe um outro nome. Um

fato digno de nota é que deles se serviu para

afirmar a missão que tinha de Deus, segundo as

suas próprias expressões, mas disso jamais se

prevaleceu para se atribuir o poder divino (1).



(1) Para o desenvolvimento completo da questão

dos milagres, ver A Gênese segundo o

Espiritismo, capítulos XIII e seguintes, onde são

explicados, pelas leis naturais, todos os milagres

do Evangelho.



É necessário, pois, riscar os milagres das provas

sobre as quais se pretende fundar a divindade da

pessoa do Cristo; vejamos agora se as

encontramos em suas palavras.



III. - Divindade de Jesus está provada pelas suas

palavras?



Dirigindo-se aos discípulos, que entraram em

disputa, para saber qual dentre eles era o maior;

e lhes disse pegando uma criança e colocando-a

junto a si:



"Quem me recebe, recebe aquele que me enviou;

porque aquele que é o menor entre vós, é o

maior." (São Lucas, cap. IX, v. 48.)



"Quem recebe em meu nome uma criancinha

como esta, me recebe, e quem me recebe, não

recebe só a mim, mas recebe aquele que me

enviou." (São Marcos, cap. IX, v. 36.)



"Jesus lhes disse, pois: "Se Deus fosse o vosso

Pai, me amaríeis, porque foi de Deus que eu saí,

e que é de sua parte que vim; porque não vim

por mim mesmo, mas foi ele quem me enviou."

(São João, cap. VIII, v. 42.)



"Jesus lhes disse, pois: "Estou ainda convosco por

um pouco de tempo, e em seguida vou para

aquele que me enviou." (São João, cap. VII, v. 33.)



"Aquele que vos escuta me escuta; aquele que

vos despreza me despreza, e quem me despreza,

despreza aquele que me enviou." (São João, cap.

X, v. 16.)



O dogma da divindade de Jesus está fundado

sobre a igualdade absoluta entre a sua pessoa e

Deus, uma vez que é o próprio Deus: é um artigo

de fé; ora, estas palavras, tão freqüentemente

repetidas por Jesus: Aquele que me enviou,

testemunham não somente quanto a dualidade

das pessoas, mas, ainda, como dissemos,

excluem a igualdade absoluta entre elas; porque

aquele que é enviado, necessariamente, está

subordinado àquele que envia; obedecendo, faz

ato de submissão. Um embaixador, falando de

seu soberano, dirá: Meu senhor, aquele que me

enviou; mas se é o soberano em pessoa que vem,

ele falará em seu próprio nome e não dirá:

Aquele que me enviou, porque não se pode

enviar a si mesmo. Jesus o disse, em termos

categóricos por estas palavras: eu não vim por

mim mesmo, mas foi ele quem me enviou.



Estas palavras: Aquele que me despreza,

despreza aquele que me enviou, não implicam,

de nenhum modo, a igualdade e ainda menos a

identidade; em todos os tempos, o insulto feito a

um embaixador era considerado como feito ao

próprio soberano. Os apóstolos tinham a palavra

de Jesus, como Jesus tinha a de Deus; quando

lhes disse: Aquele que vos escuta me escuta, não

entendia dizer que seus apóstolos e ele não

faziam senão uma única e mesma pessoa, igual

em todas as coisas.



A dualidade de pessoas, assim como o estado

secundário e subordinado de Jesus, com relação

a Deus, ressaltam, além disso, sem equívoco, das

passagens seguintes:



"Fostes vós que permanecestes sempre firmes

comigo nas minhas tentações. – Por isso eu vos

preparo o Reino, como meu pai mo preparou, – a

fim de que comais e bebais à minha mesa no

meu reino, e que vos senteis sobre os tronos

para julgar as doze tribos de Israel." (São Lucas,

cap. XXII, v. 28, 29 e 30.)



"Por mim eu digo o que vi na casa de meu Pai,

fazeis vós o que vistes na casa de vosso pai."

(São João, cap. VIII, v. 38.)



"Ao mesmo tempo apareceu uma nuvem que os

cobriu, e saiu dessa nuvem uma voz que fez

ouvir estas palavras: Este é meu filho bem-

amado; escutai-o." (Transfigur. São Marcos, cap.

IX, v. 6.)



"Ora, quando o filho do homem vier em sua

majestade, acompanhado de todos os anjos,

sentar-se-á sobre o trono de sua glória; – e

todas as nações estando reunidas, separará umas

das outras, como o pastor separa as ovelhas dos

bodes, – e colocará as ovelhas à sua direita e os

bodes à sua esquerda. – Então, o Rei dirá àqueles

que estarão à sua direita: Vinde, vós que fostes

abençoados por meu Pai, possuir o reino que vos

foi preparado desde o começo do mundo." (São

Mateus, cap. XXV, v. 31 a 34.)



"Quem me confessar e me reconhecer diante dos

homens, eu o reconhecerei e o confessarei

também diante de meu pai que está nos céus; – e

quem me renunciar diante dos homens, eu o

renunciarei também, eu mesmo, diante de meu

pai que está nos céus." (São Mateus, cap. X, v.

32, 33.)



"Ora, eu vos declaro que quem me confessar e

me reconhecer diante dos homens, o filho do

homem o reconhecerá também diante dos anjos

de Deus; mas se alguém me renunciar diante dos

homens, eu o renunciarei também diante dos

anjos de Deus." (São Lucas, cap. XII, v. 8, 9.)



"Mas se alguém se envergonhar de mim e de

minhas palavras, o filho do homem se

envergonhará também dele, quando vier em sua

glória e na de seu pai e dos santos anjos." (São

Lucas, cap. IX, v. 26.)



Nestas duas últimas passagens, Jesus parecia

mesmo colocar acima dele os santos anjos,

compondo o tribunal celeste, diante do qual seria

o defensor dos bons e o acusador dos maus.



"Mas por aquilo que é de estar sentado à minha

direita ou à minha esquerda, não é a mim, de

nenhum modo, que cabe vo-lo dar, mas será por

aquele a quem meu Pai preparou." (São Mateus,

cap. XX, v. 23.)



"Ora, os Fariseus estando reunidos, Jesus lhes fez

esta pergunta – e lhes disse: "Que vos parece do

Cristo? De quem é filho? Eles lhe responderam:

De David. – E como, pois, lhes disse, David

chama-o em espírito o seu Senhor com estas

palavras: O Senhor disse ao meu Senhor: Sentai-

vos à minha direita até que reduza os vossos

inimigos a vos servir de escabelo? Se, pois, David

chama-o seu Senhor, como é seu filho? "(São

Mateus, cap. XXII, v. 41 a 45.)



"Mas Jesus, ensinando no templo, lhes disse:

Como os escribas dizem que o Cristo é o filho de

David, – uma vez que David, ele mesmo, disse ao

meu Senhor: Sentai-vos à minha direita até que

haja reduzido vossos inimigos a vos servir de

escabelo? – Depois, portanto, que David o chama,

ele mesmo, seu senhor, como é seu filho? "(São

Marcos, cap. XII, v. 35, 36, 37. – São Lucas, cap.

XX, v. 41 a 44.)



Jesus consagra, com estas palavras, o princípio

da diferença hierárquica que existe entre o Pai e

o Filho. Jesus podia ser o filho de David por

filiação corpórea, e como descendente de sua

raça, foi porque teve o cuidado de ajuntar:

"Como o chama em espírito, seu senhor? " Se há

uma diferença hierárquica entre o pai e o filho;

Jesus, como filho de Deus, não pode ser o igual

de Deus.



Jesus confirma essa interpretação e reconhece

sua inferioridade em relação a Deus, em termos

que não deixam equívoco possível:



"Ouvistes o que vos disse:" Eu me vou, e volto a

vós. Se me amais, vos alegrareis de que vou para

meu Pai, porque meu Pai É MAIOR DO QUE EU."

(São João, cap. XIV, v. 28).



"Então um jovem se aproxima e lhe diz: Bom

mestre, que bem é necessário que eu faça para

adquirir a vida eterna? – Jesus lhe respondeu:

"Por que me chamais bom? Não há senão Deus

que seja bom. Se quereis entrar na vida, guardai

os mandamentos." (São Mateus, cap. XIX, v. 16,

17. – São Marcos, cap. X, v. 17, 18, – São Lucas,

cap. XVIII, v. 18, 19.)



Não somente Jesus não se deu, em nenhuma

circunstância, por ser o igual de Deus, mas aqui

ele afirma positivamente o contrário, considera-

se como inferior em bondade; ora, declarar que

Deus está acima dele pelo poder e suas

qualidades morais, é dizer que ele mesmo não é

Deus. As passagens seguintes vêm em apoio

destas, e são também explícitas.



"Não falei, de nenhum modo, de mim mesmo;

mas meu Pai, que me enviou, foi quem me

prescreveu, por seu poder, o que devo dizer, e

como devo falar; – e eu sei que o seu poder é a

vida eterna; o que eu digo, pois, o digo segundo

o que meu Pai mo ordenou." (São João, cap. XII,

v. 49, 50.)



"Jesus lhes respondeu: "Minha doutrina não é

minha doutrina, mas a doutrina daquele que me

enviou. – Se alguém quer fazer a vontade de

Deus, reconhecerá se a minha doutrina é dele, ou

se falo de mim mesmo. – Aquele que fala de seu

próprio movimento procura sua própria glória,

mas aquele que procura a glória de quem o

enviou é verídico, e nele, de nenhum modo, há

injustiça." (São João, cap. VII, v. 16, 17, 18.)



"Aquele que não me ama nada, não guarda,

minha palavra; e a palavra que ouvistes não foi a

minha palavra em nada, mas a de meu Pai que

me enviou.’ (São João, cap. XIV, v. 24.)



"Não credes que estou em meu Pai e que meu Pai

está em mim? O que vos digo, não vo-lo digo por

mim mesmo; mas meu Pai, que mora em mim

faz, ele mesmo, as obras que eu faço." (São João,

cap. XIV, v. 10.)



"O céu e a Terra passarão, mas as minhas

palavras não passarão. – Pelo que é do dia e da

hora, o homem não o saiba, não, nem mesmo os

anjos que estão no céu, nem mesmo o Filho, mas

somente o Pai. "(São Marcos, cap. XIII. v. 32. –

São Mateus, cap. XXIV v. 35, 36.) .



"Jesus lhes disse, pois: "Quando houverdes

levantado ao alto o filho do homem, então

conhecereis o que sou, porque eu não faço nada

de mim mesmo, não digo senão o que meu Pai

me ensinou; e aquele que me enviou está

comigo, e de modo nenhum me deixou só,

porque faço sempre o que lhe é agradável." (São

João, cap. VIII, v. 28, 29.)



"Desci do céu não para fazer a minha vontade,

mas para fazer a vontade daquele que me

enviou." (São João, cap. VI, v. 38.)



Não posso nada fazer de mim mesmo. Julgo

segundo o que entendo, e meu julgamento é

justo porque não procuro minha vontade, mas a

vontade daquele que me enviou." (São João, cap.

V, v. 30.)



"Mas, por mim, tenho um testemunho maior do

que o de João, porque as obras que meu Pai me

deu o poder de fazer, as obras, digo eu, que

faço, dão testemunho de mim, que foi meu Pai

que me enviou." (São João, cap. V, v. 36.)



"Mas agora procurais me fazer morrer, eu que

vos disse a verdade que aprendi de Deus, foi o

que Abraão nunca fez." (São João, cap. VIII, v.

40.)



Desde então, que ele não disse nada de si

mesmo; que a doutrina que ensinou não é a sua,

mas que a tem de Deus, que lhe ordenou vir

fazê-la conhecer; que não faz senão o que Deus

lhe deu o poder de fazer; que a verdade que

ensina, ele aprendeu de Deus, à vontade de

quem está submetido; é que não é o próprio

Deus, mas seu enviado, seu messias e seu

subordinado.



É impossível recusar, de maneira mais positiva,

toda assimilação à pessoa de Deus, e de

determinar seu principal papel em termos mais

precisos. Não estão aí pensamentos ocultos sob

o véu da alegoria, e que não se descobrem senão

à força de interpretação: é o sentido próprio,

expresso sem ambigüidade.



Se se objetasse que Deus, não querendo se fazer

conhecer na pessoa de Jesus, enganasse sobre a

sua individualidade, poder-se-ia perguntar sobre

o quê está fundada essa opinião, e quem tem

autoridade para sondar o fundo de seu

pensamento, e dar, às suas palavras, um sentido

contrário àquele que elas exprimem? Uma vez

que, quando vivo, ninguém o considerava como

Deus, mas era olhado, ao contrário, como um

messias, se não quisesse ser conhecido pelo que

era, bastar-lhe-ia nada dizer; de sua afirmação

espontânea é preciso concluir que ele não era

Deus, ou que, se o era, voluntariamente e sem

utilidade, disse uma coisa falsa.



É de notar-se que São João, aquele dos

Evangelistas sobre a autoridade de quem mais se

apoiou para estabelecer o dogma da divindade

do Cristo, seja precisamente o que encerra os

argumentos contrários mais numerosos e os

mais positivos; pode-se disso convencer pela

leitura das passagens seguintes, que não

acrescentam nada, é verdade, às provas já

citadas, mas vêm em seu apoio, porque delas

ressaltam evidentemente a dualidade e a

desigualdade das pessoas.



"Por causa disso, os Judeus perseguiam Jesus e

procuravam fazê-lo morrer, porque fizera essas

coisas no Sábado. – Mas Jesus lhes disse: Meu pai

age até o presente, e eu ajo também. (São João,

cap. V, v. 16, 17.)



"Porque o Pai não julga ninguém; mas dá todo

poder de julgar ao Filho, – a fim de que todos

honrem o Filho, como honram o Pai. Aquele que

não honra em nada o Filho, não honra em nada o

Pai que o enviou.



Em verdade, em verdade vos digo, aquele que

ouve a minha palavra, e que crê naquele que me

enviou, tem a vida eterna, e não cai, na

condenação; mas já passou da morte à vida."



"Em verdade, em verdade vos digo, a hora vem, e

ela já veio, em que os mortos ouvirão a voz do

Filho de Deus, e aqueles que ouvirão, viverão;

porque como o Pai tem a vida em si mesmo,

também deu ao Filho ter a vida nele mesmo, – e

lhe deu o poder de julgar, porque é o Filho do

homem. "(São João, cap. V, v. 22 a 27.)



"E o Pai que me enviou, ele mesmo, tem dado

testemunho de mim. Jamais ouvistes a sua voz,

nem vistes a sua face. E sua palavra não

permanecerá em vós, porque não credes naquele

que ele enviou." (São João, cap. V, v. 37,38.)



"E quando eu julgar, o meu julgamento será

digno de fé, porque não estou só; mas meu Pai,

que me enviou, está comigo." (São João, cap. VIII,

v. 16.)



Jesus, tendo dito essas coisas, levou os olhos ao

céu e disse: "Meu Pai, a hora é chegada; glorificai

vosso Filho, a fim de que vosso Filho vos

glorifique. – Como lhe deste poder sobre todos

os homens, a fim de que dê a vida eterna a todos

aqueles que lhe destes. – Ora, a vida eterna

consiste em vos conhecer, a vós que sois O

ÚNICO DEUS verdadeiro, e a Jesus Cristo que

enviastes.



"Eu vos glorifiquei sobre a Terra; acabei a obra

da qual me encarregastes. – E vós, meu Pai,

glorificai-me, pois, agora em vós mesmos, dessa

glória que tive em vós antes que o mundo fosse.



"Logo eu não estarei mais no mundo; mas, por

eles, estão ainda no mundo, e eu dele retorno a

vós. Pai santo, conservai em vosso nome aqueles

que me destes, a fim de que sejam um como

nós."



"Eu lhes dei vossa palavra, e o mundo os odiou,

porque não são em nada do mundo, como eu,

não sou, eu mesmo, do mundo."



"Santificai-os na verdade. A vossa palavra é a

própria verdade. – Assim como vós me enviastes

ao mundo, eu também os enviei ao mundo, – e

eu me santifico, a mim mesmo, por eles, a fim de

que sejam também santificados na verdade. "



"Eu não peço por eles somente, mas ainda por

aqueles que devem crer em mim pela sua

palavra; – a fim de que estejam todos juntos,

como vós, meu Pai, estais em mim e eu em vós;

que eles, sejam do mesmo modo, um em nós, a

fim de que o mundo creia que me enviastes."



"Meu Pai, desejo que lá onde estou, aqueles que

me destes ali estejam também comigo; a fim de

que contemplem minha glória, que me destes,

porque me amastes antes da criação do mundo."



"Pai justo, o mundo em nada vos conheceu; mas

eu, eu vos conheci: e estes conheceram que me

enviastes. – Eu lhes fiz conhecer vosso nome e o

farei conhecer ainda, a fim de que o amor, com o

qual me amastes, esteja neles, e que eu próprio

o esteja neles." (São João, cap. XVII, v. 1 a 5, 11 a

14, de 17 a 26, Prece de Jesus.)



"É por isso que meu Pai me ama, porque deixo a

minha vida para retomá-la. – Ninguém ma

arrebata, mas sou eu que a deixo por mim

mesmo; tenho o poder de deixá-la e tenho o

poder de retomá-la. É o poder que recebi de meu

Pai." (São João, cap. X, v. 17, 18.)



"Eles tiraram a pedra, e Jesus, levantando os

olhos para o alto, disse estas palavras: Meu Pai,

eu vos dou graça pelo que me atendestes. – Por

mim, sabia que me atenderíeis sempre; mas digo

isso para esse povo que me cerca, a fim de que

creia que foi vós que me enviastes." (Morte de

Lázaro, São João, cap. XI, v. 41, 42.)



"Eu não vos falarei muito mais, porque o príncipe

deste mundo vai chegar, embora não tenha nada

em mim que lhe pertença: mas a fim de que o

mundo conheça que amo meu Pai, e que faço o

que meu Pai me ordenou." (São João, cap. XIV, v.

30 e 31.)



"Se guardardes meus mandamentos,

permanecereis no meu amor, como eu mesmo

guardei os mandamentos de meu Pai, e

permaneço em seu amor." (São João, cap. XV, v.

10.)



"Então Jesus, lançando uma grande exclamação,

disse: Meu Pai, reponho minha alma em vossas

mãos. E, pronunciando estas palavras, expirou."

(São Lucas, cap. XXIII, v. 46.)



Uma vez que Jesus, ao morrer, repunha a sua

alma entre as mãos de Deus, tinha, portanto,

uma alma distinta de Deus, submissa a Deus,

portanto, não era o próprio Deus.



As palavras seguintes dão testemunho de uma

certa fraqueza humana, de uma aprensão da

morte e dos sofrimentos que Jesus vai suportar,

e que contrasta com a natureza, essencialmente

divina, que se lhe atribui; mas elas testemunham,

ao mesmo tempo, uma submissão que é a do

inferior ao superior.



"Então, Jesus chegou num lugar chamado

Getsêmani; e disse aos seus discípulos: Sentai-

vos aqui enquanto vou ali para orar. – E tendo

tomado consigo Pedro e os dois filhos de

Zebedeu, começou a se entristecer e a estar

numa grande aflição. Então, lhes disse: Minha

alma está triste até à morte; permanecei aqui e

velai comigo. – e indo um pouco mais longe, se

prosternou o rosto contra a terra, pedindo e

dizendo: Meu Pai, se for possível, faça com que

este cálice se afaste de mim; não obstante, que

isso seja não como eu o quero, mas como o

quereis. – Veio em seguida para os seus

discípulos, e tendo-os encontrado dormindo,

disse a Pedro: O quê! Não pudestes velar uma

meia hora comigo? – Velai e orai, a fim de que

não cairdes, na tentação. O Espírito está pronto,

mas a carne é fraca. – Foi-se ainda orar uma

segunda vez, dizendo: "Meu Pai, se este cálice

não pode passar sem que eu o beba, que a vossa

vontade seja feita." (Jesus no Jardim das

Oliveiras. (São Mateus, cap. XXVI, v. de 36 a 42.)



"Então, lhes disse: Minha alma está triste até à

morte; permanecei aqui e velai. – E, tendo ido um

pouco mais longe, se prosternou contra a terra,

pedindo que, se fosse possível, essa hora se

afastasse dele. – E dizia: Abba, meu Pai, tudo vos

é possível, transportai este cálice para longe de

mim; contudo, que a vossa vontade seja feita e

não a minha." (São Marcos, cap. XIV, v. 34, 35,

36.)



"Quando chegou naquele lugar, lhes disse: Orai a

fim de que não sucumbais em nada à tentação. –

E estando longe deles em torno de um lanço de

pedra, pôs-se de joelhos, dizendo: Meu Pai, se

quereis, afastai este cálice de mim; contudo, que

isso não seja minha vontade que se faça, mas a

vossa. – Então apareceu-lhe um anjo do céu que

veio fortificá-lo. – E, tendo caído em agonia,

redobrou as suas preces. – E lhe veio um suor de

gotas de sangue que corria até a terra." (São

Lucas, cap. XXII, v. de 40 a 44.)



E na nona hora, Jesus lançou um grande grito,

dizendo: Eli! Eli! Lamma Sabachthani? quer dizer:

meu Deus! meu Deus! por que me abandonastes?

(São Mateus, cap. XXVII, v. 46.)



"E na nona hora, Jesus lançou um grande grito,

dizendo: Meu Deus! Meu Deus! Por que me

abandonastes?" (São Marcos, cap. XX, v. 34.)



As palavras seguintes poderiam deixar alguma

incerteza e dar lugar a crer numa identificação de

Deus com a pessoa de Jesus; mas, além de que

não poderia prevalecer sobre os termos precisos

daquelas que precedem, levam ainda, nelas

mesmas, a sua própria retificação.



"Eles lhe disseram: Que sois vós, pois? Jesus lhes

respondeu: eu sou o princípio de todas as coisas,

eu mesmo que vos falo. – Tenho muitas coisas a

dizer de vós; mas aquele que me enviou é

verdadeiro, e não digo senão o que aprendi com

ele." (São João, cap. VII, v. 25, 26.)



"O que meu Pai me deu é maior do que todas as

coisas; e ninguém pode arrebatá-lo da mão de

meu Pai. Meu Pai e eu somos uma mesma coisa. "



Quer dizer, que seu pai e ele não são senão um

pelo pensamento, uma vez que exprime o

pensamento de Deus; que ele tem a palavra de

Deus.



"Então, os judeus pegaram pedras para lapidá-lo.

– e Jesus lhes disse: Fiz, diante de vós, várias

boas obras pelo poder de meu Pai: por qual delas

é que me lapidais? – Os judeus lhe responderam:

Não é por nenhuma boa obra que vos lapidamos,

mas por causa de vossa blasfêmia e porque,

sendo homem, vos fazeis Deus. – Jesus lhes

replicou: Não está escrito na vossa lei: Eu disse

que sois deuses? – Se, pois, ela chama deuses

àqueles a quem a palavra de Deus está dirigida, e

que as Escrituras não possam ser destruidas, –

por que dizeis que blasfemo, eu que meu Pai

santificou e enviou no mundo, porque eu disse

que sou filho de Deus? – Se não faço as obras de

meu Pai, não me creiais; mas se as faço, quando

não queirais crer em mim, crede nas minhas

obras, a fim de que conheçais e creiais que meu

Pai está em mim, e eu em meu Pai." (São João,

cap. X, v. 29 a 38.)



Num outro capítulo, dirigindo-se aos seus

discípulos, lhes disse:



"Naquele dia, conhecereis que estou em meu Pai

e vós em mim, e eu em vós." (São João, cap. XIV,

v. 20.)



Dessas palavras, não é preciso concluir que Deus

e Jesus não fazem senão um, de outro modo

seria preciso concluir também, das mesmas

palavras, que os apóstolos não fazem,

igualmente, senão um com Deus.



IV. Palavras de Jesus depois de sua morte



"Jesus lhes respondeu: Não me toqueis, porque

ainda não subi para o meu Pai; mas ide procurar

os meus irmãos e lhes dizei, de minha parte: Eu

subi para o meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e

vosso Deus." (Aparição a Maria Madalena. São

João, cap. XX, v. 17.)



"Mas Jesus, aproximando-se, assim lhes falou:

Todo poder me foi dado no céu e sobre a Terra."

(Aparição aos Apóstolos. São Mateus, cap. XXVIII,

v. 18.)



"Ora, sois testemunhas destas coisas; – E eu vou

enviar-vos o dom de meu Pai que vos foi

prometido." (Aparição aos Apóstolos. São Lucas,

cap. XXIV, v. 48, 49.)



Tudo acusa, pois, nas palavras de Jesus, seja

quando vivo, seja depois de sua morte, uma

dualidade de pessoas perfeitamente distintas,

assim como o profundo sentimento de sua

inferioridade e de sua subordinação com relação

ao Ser supremo. Por sua insistência ao afirmar

espontaneamente, sem ser a isso constrangido,

nem provocado, por quem quer que seja, parece

querer protestar de antemão contra o papel que

ele previa que se lhe seria atribuído um dia. Se

tivesse guardado silêncio sobre o caráter de sua

personalidade, o campo estaria aberto para todas

as superstições como a todos os sistemas; mas a

precisão de sua linguagem afasta toda incerteza.



Que autoridade maior se pode encontrar do que

as próprias palavras de Jesus? Quando diz,

categoricamente: sou ou não sou tal coisa, quem

ousaria se arrogar o direito de dar-lhe um

desmentido, fosse isso para colocá-lo mais alto

do que ele mesmo não se coloca? Quem é que,

razoavelmente, pode pretender estar mais

esclarecido do que ele sobre a sua própria

natureza? Que interpretações podem prevalecer

contra afirmações tão formais e tão multiplicadas

como estas:



"Não vim por mim mesmo, mas aquele que me

enviou é o único Deus verdadeiro. – É de sua

parte que venho. – Eu digo o que vi na casa de

meu Pai. – Não cabe a mim vo-lo dar, mas isso

será para aqueles a quem meu Pai o preparou. –

Eu me vou para meu Pai, porque meu Pai é maior

do que eu. – Por que me chamais bom? Não há

senão Deus que seja bom. – Não falo por mim

mesmo, mas meu Pai, que me enviou, foi quem

me prescreveu pelo seu mandamento, o que

devo dizer. – A minha doutrina não é minha

doutrina, mas a doutrina daquele que me enviou.

– A palavra que ouvistes, não é a minha palavra,

mas a do meu Pai que ma enviou. – Não faço

nada por mim mesmo, mas não digo senão

aquilo que meu Pai me ensinou. – Nada pude

fazer por mim mesmo. – Eu não procuro a minha

vontade, mas a vontade daquele que me enviou.

– Eu vos disse a verdade que aprendi de Deus. –

Meu alimento é fazer a vontade daquele que me

enviou. – Vós sois o único Deus verdadeiro, e

Jesus Cristo que enviastes. – Meu Pai, reponho a

minha alma em vossas mãos. – Meu Pai, se for

possível, fazei com que este cálice se afaste de

mim. – Meu Deus, meu Deus, por que me

abandonastes? – Eu subo para o meu Pai e vosso

Pai, para o meu Deus e vosso Deus."



Quando se lê tais palavras, pergunta-se somente

como pôde vir ao pensamento dar-lhes um

sentido diametralmente oposto àquele que elas

exprimem tão claramente, conceber uma

identificação completa de natureza e de poder

entre o senhor e aquele que se diz seu servidor.

Nesse grande processo, que dura há quinze

séculos, quais são as peças de convicção? Os

Evangelhos, – não há outras, – que, sobre o

ponto em litígio, não dão lugar a nenhum

equívoco. A esses documentos autênticos, que

não se pode contestar sem se inscrever em falso

contra a veracidade dos evangelistas e do próprio

Jesus, documentos estabelecidos por

testemunhos oculares, que se lhes opõem? Uma

doutrina teórica puramente especulativa, nascida

três séculos mais tarde de uma polêmica

estabelecida sobre a natureza abstrata do Verbo,

vigorosamente combatida durante vários séculos,

e que não prevaleceu senão pela pressão de um

poder civil absoluto.



V. Dupla natureza de Jesus



Poder-se-ia objetar que, em razão da dupla

natureza de Jesus, suas palavras eram a

expressão de seu sentimento como homem, e

não como Deus. Sem examinar, neste momento,

por qual encadeamento de circunstâncias se

conduziu, bem mais tarde, à hipótese dessa

dupla natureza, admitamo-la, por um instante, e

vejamos se, em lugar de elucidar a questão, ela

não a complica mais, ao ponto de torná-la

insolúvel.



O que devia ser humano em Jesus era o corpo, a

parte material; deste ponto de vista

compreende-se que ele haja mesmo podido

sofrer como homem. O que devia ser divino nele

era a alma, o Espírito, o pensamento, em uma

palavra, a parte espiritual do Ser. Se sentia e

sofria como homem, deveria pensar e falar como

Deus. Ele falou como homem ou como Deus?

Está aí uma questão importante pela autoridade

excepcional de seus ensinamentos. Se falou

como homem, suas palavras são discutíveis; se

falou como Deus elas são indiscutíveis; é preciso

aceitá-las e a elas se conformar sob pena de

deserção e de heresia; o mais ortodoxo seria

aquele que delas se aproximasse mais.



Dir-se-á que, sob o envoltório corpóreo, Jesus

não tinha consciência de sua natureza divina?

Mas, se fora assim, não teria mesmo pensado

como Deus, sua natureza divina teria ficado no

estado latente; só a natureza humana teria

presidido à sua missão, aos seus atos morais

como aos seus atos materiais. É, pois, impossível

fazer abstração de sua natureza divina durante a

sua vida, sem enfraquecer a sua autoridade.



Mas se falou como Deus, por que esse incessante

protesto contra a sua natureza divina que, nesse

caso, não podia ignorar? Estaria, pois, enganado,

o que seria pouco divino, ou teria

conscientemente enganado o mundo, o que o

seria ainda menos. Parece-nos difícil sair desse

dilema.



Admitindo-se que falou ora como homem, ora

como Deus, a questão se complica, pela

impossibilidade de distinguir o que vinha do

homem e o que vinha de Deus.



No caso, onde haveria tido motivos para

dissimular a sua verdadeira natureza durante a

sua missão, o meio mais simples era dela não

falar, ou se exprimir como o fez em outras

circunstâncias, de maneira vaga e parabólica,

sobre os pontos cujo conhecimento estava

reservado para o futuro; ora, tal não é aqui o

caso, uma vez que as suas palavras não têm

nenhuma ambigüidade.



Enfim, se, apesar de todas essas considerações,

se pudesse ainda supor que, quando vivo,

ignorou a sua verdadeira natureza, essa opinião

não é mais admissivel depois da sua

ressurreição; porque, quando aparece aos seus

discípulos, não é mais o homem que fala, é o

Espírito desligado da matéria, que deve ter

recobrado a plenitude de suas faculdades

espirituais e a consciência de seu estado normal,

de sua identificação com a divindade; e,

entretanto, é então que diz: Eu subo para o meu

Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus!



A subordinação de Jesus é ainda indicada pela

sua própria qualidade de mediador, que implica a

existência de uma pessoa distinta; é ele que

intercede junto de seu Pai; que se oferece em

sacrifício para resgatar os pecadores; ora, se é

Deus, ele mesmo, ou lhe era igual em todas as

coisas, não tinha necessidade de interceder,

porque não se intercede junto de si mesmo.



VI. Opinião dos Apóstolos



Até o presente, apoiamos-nos exclusivamente

nas próprias palavras do Cristo, como o único

elemento peremptório de convicção, porque fora

disso não pode haver senão opiniões pessoais.



De todas essas opiniões, as que têm mais valor,

incontestavelmente, são as dos apóstolos, tendo

em vista que eles o assistiram em sua missão, e

que, se lhes deu instruções secretas quanto à sua

natureza, delas se encontrará traços em seus

escritos. Tendo vivido em sua intimidade, melhor

do que quem quer que seja, deveriam conhecê-

lo. Vejamos, pois, de que maneira o

consideraram.



"Ó Israelitas, escutai as palavras que vou vos

dizer: Sabeis que Jesus de Nazaré foi um homem

que Deus tornou célebre entre vós pelas

maravilhas, pelos prodígios e pelos milagres que

fez por ele no vosso meio. – Entretanto, o

crucificastes, e o fizestes morrer pelas mãos dos

maus, tendo-o entregue por uma ordem

expressa da vontade de Deus e por um decreto

de sua presciência. – Mas Deus o ressuscitou,

parando as dores do inferno, sendo impossível

que ali fosse retido. – Porque Davi disse em seu

nome: Tenho sempre o Senhor presente diante

de mim, porque ele está à minha direita, a fim de

que eu não seja abalado. – É por isso que o meu

coração está alegre, que a minha língua cantou

cânticos de alegria, e que mesmo a minha carne

repousará em esperança; – porque não deixareis,

minha alma no inferno, e que não permitis nunca

que vosso Santo sofra a corrupção. – Vós me

fizestes conhecer o caminho da vida, e me

enchereis com a alegria que dá a visão do vosso

rosto." (Atos dos Apóstolos, cap. II, v. 22 a 28.

Pregação de São Pedro.)



"Depois, portanto, que foi elevado pelo poder de

Deus, e que recebeu o cumprimento da promessa

de que o Pai lhe enviara o Santo Espírito, ele

difundiu esse Espírito Santo que vedes e

entendeis agora; – porque Davi nunca subiu ao

céu; – ora, ele mesmo disse: O Senhor disse ao

meu Senhor: Sentai-vos à minha direita, até que

eu haja reduzido os vossos inimigos a vos servir

de escabelo. – Que toda a casa de Israel saiba,

pois, muito certamente que Deus fez Senhor e

Cristo esse Jesus que crucificastes." (Atos dos

Apóstolos, capítulo II, v. de 33 a 36, Pregações

de São Pedro.)



"Moisés disse aos nossos pais: O Senhor vosso

Deus vos suscitará, dentre os vossos irmãos, um

profeta como eu; escutai-o em tudo o que vos

dirá. – Quem não escutar esse profeta será

exterminado do meio do povo.



"Foi por vós primeiramente que Deus suscitou

seu filho, e vo-lo enviou para vos bendizer, a fim

de que cada um se convertesse de sua má vida."

(Atos dos Ap., cap. III, v. 22, 23, 26. Pregação de

São Pedro.)



"Nós vos declaramos, a todos vós e a todo povo

de Israel, que é pelo nome de Nosso Senhor Jesus

Cristo de Nazaré, o qual haveis crucificado, e que

Deus ressuscitou dentre os mortos; foi por ele

que este homem está agora curado como o vedes

diante de vós." (Atos dos Ap., cap. IV, v. 10.

Pregação de São Pedro.)



"Os reis da Terra foram levantados, os príncipes

se uniram juntos contra o Senhor e contra seu

Cristo. – Porque Herodes e Pôncio Pilatos, com os

Gentios e o povo de Israel, verdadeiramente se

puseram de acordo, nesta cidade, contra vosso

santo Filho Jesus, que consagrastes pela vossa

unção, para fazer tudo o que o vosso poder e o

vosso conselho ordenaram dever ser feito." (Atos

dos Ap. cap. IV, v. 26, 27, 28. Prece dos

Apóstolos.)



"Pedro e os outros apóstolos responderam: é

necessário antes obedecer a Deus do que aos

homens. – O Deus de nossos Pais ressuscitou

Jesus que fizestes morrer dependurando-o no

madeiro. – Foi ele que Deus elevou para a sua

direita como sendo o príncipe e o salvador, para

dar a Israel a graça da penitência e a remissão

dos pecados." (V. Atos dos Ap., cap. V, v. 29, 30,

31. Respostas dos Apóstolos ao grande

sacerdote.)



"Foi esse Moisés que disse aos filhos de Israel:

Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um

profeta como eu, escutai-o.



Mas o Mais Alto não habita, nos templos feitos

pela mão dos homens, segundo esta palavra do

profeta: – O céu é o meu trono, e a terra é o meu

escabelo. Que casa me edificareis, disse o

Senhor? E qual poderia ser o lugar de meu

repouso? "(Atos dos Apóstolos, cap. VII, v. 37,

48, 49. Discurso de Estêvão.)



"Mas Estêvão, estando cheio do Santo Espírito, e

levantando os olhos aos céus, viu a glória de

Deus, e Jesus que estava de pé à direita de Deus,

e ele disse: Vejo abertos os céus, e o Filho do

homem que está de pé à direita de Deus.



"Então, lançando grandes gritos, e tapando os

ouvidos, lançaram-se juntos sobre ele; – e

tendo-o arrastado fora dos muros da cidade,

lapidaram-no; e as testemunhas depuseram as

sua vestes aos pés de um jovem chamado Saulo

(mais tarde São Paulo). – Assim lapidaram

Estêvão, e invocava Jesus, e dizia: Senhor Jesus,

recebei o meu Espírito." (Atos dos Apóstolos,

cap. VII, v. de 55 a 58. Martírio de Estêvão)



Estas citações testemunham claramente o caráter

que os apóstolos atribuíam a Jesus . A idéia

exclusiva que delas ressalta é a de sua

subordinação a Deus, da constante supremacia

de Deus, sem que nada ali revele um pensamento

de assimilação qualquer de natureza e de poder.

Para eles, Jesus era um homem profeta,

escolhido e bendito por Deus. Não foi, pois,

entre os apóstolos que a crença na divindade de

Jesus nasceu. São Paulo, que não conhecera

Jesus, mas que, de ardente perseguidor se

tornou o mais zeloso e o mais eloqüente

discípulo da fé nova, e cujos escritos prepararam

os primeiros formulários da religião cristã, não é

menos explícito a esse respeito. É o mesmo

sentimento de dois seres distintos, e da

supremacia do Pai sobre o filho.



"Paulo, servidor de Jesus Cristo, apóstolo da

vocação divina, escolhido e destinado para

anunciar o evangelho de Deus, – que ele

prometera antes, pelos seus profetas, nas

escrituras santas, – com respeito a seu filho, que

lhe nasceu, segundo a carne, do sangue e da

raça de Davi; – que foi predestinado para ser

filho de Deus, num soberano poder, segundo o

Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os

mortos; com respeito, disse eu, a Jesus Cristo,

nosso Senhor; – por quem recebemos a graça do

apostolado, para fazer obedecer, ao mesmo

tempo, todas as nações pela virtude de seu

nome; – na fileira das quais estais também, como

sendo chamadas por Jesus Cristo; – a vós que

estais em Roma, que sois queridos de Deus, e

chamados para serem santos; que Deus, nosso

Pai, e Jesus Cristo, nosso Senhor, vos dêem a

graça e a paz." (Romanos, cap. I, v. 1 a 7.)



"Assim, estando justificados pela fé, tenhamos a

paz com Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor.



Pois por que, quando estávamos na languidez do

pecado, Jesus Cristo morreu por ímpios como

nós, no tempo destinado por Deus?



Jesus Cristo não deixou de morrer por nós no

tempo destinado por Deus. Assim, estando agora

justificados pelo seu sangue, seremos com mais

forte razão livrados por ele da cólera de Deus.



E não somente fomos reconciliados, a nós, nos

glorificamos mesmo em Deus por Jesus Cristo,

nosso Senhor, por quem obtivemos essa

reconciliação.



Se pelo pecado de um só vários morreram, a

misericórdia e o dom de Deus se derramaram,

com mais forte razão, abundantemente, sobre

vários pela graça de um só homem, que é Jesus

Cristo." (Romanos, cap. V, v. 1, 6, 9, 11, 15, 17.)



"Se somos filhos, somos também herdeiros;

HERDEIROS de Deus e CO-HERDEIROS de Jesus

Cristo, desde que, todavia, soframos com ele."

(Romanos, cap. VIII, v. 17.)



"Se vos confessais de boca que Jesus Cristo é o

Senhor e se credes de coração que Deus o

ressuscitou dentre os mortos, sereis salvos."

(Romanos, cap. X, v. 9.)



"Em seguida virá a consumação de todas as

coisas, quando terá entregue o seu reino a Deus,

seu Pai, e tiver destruido todo império, toda

dominação, todo poder, – porque Jesus Cristo

deve reinar até que seu Pai tenha posto todos os

seus inimigos sob os pés. – Ora, a morte será o

último inimigo que será destruído; porque as

Escrituras disseram que Deus os pôs todos sob

os pés e a todos sujeitou-lhe; é indubitável que

nisso é preciso excetuar aquele que sujeitou

todas as coisas. – Quando, pois, todas as coisas

estiverem submetidas ao Filho, quando o Filho

estiver, ele mesmo, submetido a aquele que lhe

terá submetido todas as coisas, a fim de que

Deus seja tudo em todos." (1a. aos Coríntios,

cap. XV, v. de 24 a 28.)



"Mas veremos que Jesus, que se tornara, por um

pouco de tempo, inferior aos anjos, foi coroado

de glória e de honra por causa da morte que

sofreu; Deus, em sua bondade, tendo querido

que ele morresse por todos, – porque era bem

digno de Deus, por quem e para quem são todas

as coisas, que, querendo conduzir à glória vários

filhos, consumou e aperfeiçoou pelo sofrimento,

aquele que deveria ser o chefe e o autor de sua

salvação.



"Assim, aquele que santifica e aqueles que são

santificados, vêm todos de um mesmo princípio;

é por isso que não ruboriza ao chamá-los seus

irmãos, – dizendo: Eu anunciarei o vosso nome

aos meus irmãos; eu cantarei os vossos louvores

no meio da assembléia de vosso povo. – E,

alhures, porei a minha confiança em Deus. E em

um outro lugar: eis-me com os filhos que Deus

me deu.



"Eis porque foi necessário que fosse em tudo

semelhante aos seus irmãos, para ser para com

Deus um pontífice compassivo e fiel em seu

ministro, a fim de expiar os pecados do povo. –

porque foi das penas e dos próprios sofrimentos,

pelos quais foi tentado e provado, que tirou a

virtude e a força de socorrer aqueles que, são

também tentados." (Hebreus, cap. II, v. de 9 a 13,

17, 18.)



"Portanto, vós meus santos irmãos, que tendes

parte na vocação celeste, considerai Jesus, que é

o apóstolo e o pontífice da religião que

professamos; – que é fiel àquele que o

estabeleceu nesse cargo, como Moisés lhe foi fiel

em toda sua casa; – porque ele foi julgado digno

de uma glória tanto maior do que a de Moisés,

do que aquele que edificou a casa, e mais

estimável do que a própria casa; porque não há

casa que não haja sido construída por alguém.

Ora, aquele que é o arquiteto e o criador de

todas as coisas é Deus." (Hebreus, cap. III, v. de 1

a 4.)



VII. Predições dos profetas concernentes a Jesus



Além das afirmações de Jesus e da opinião dos

apóstolos, há um testemunho do qual os mais

ortodoxos dos crentes não saberiam contestar o

valor, uma vez que o apontam constantemente

como artigo de fé; é o do próprio Deus; quer

dizer, o dos profetas, falando sob a inspiração e

anunciando a vinda do Messias. Ora, eis as

passagens da Bíblia consideradas como a

predição desse grande acontecimento.



"Eu o vejo, mas não agora; eu o vejo mas não de

perto; uma estrela procede de Jacó, e um cetro se

levanta de Israel e trespassa os chefes de Moab,

e destruirá todos os filhos de Seth." (Números,

XXIV, v. 17.)



"Eu lhes suscitarei um profeta, como tu, de entre

seus irmãos, e colocarei as minhas palavras em

sua boca, e lhes dirá ele o que eu lhe tiver

ordenado. E ocorrerá que, quem não escutar as

palavras que dirá em meu nome, disso lhe

pedirei conta." (Deuteronômio. XVIII, v. 18, 19.)



"Ocorrerá, pois, quando os dias tiverem se

cumprido para lá levar-te com teus pais que farei

levantar a tua posteridade depois de ti, um dos

teus filhos, e estabelecerei o seu reino, e ele me

construirá uma casa, e afirmarei seu trono para

sempre. Eu lhe serei pai e ele me será filho; e não

retirarei a minha misericórdia dele, como a retirei

daquele que foi antes de ti, e o estabelecerei em

minha casa e em meu reino para sempre, e seu

trono será afirmado para sempre." (I,

Paralipômenos, XVII, v. de 11 a 14.)



"É porque o próprio Senhor vos dará um sinal.

Eis: uma virgem ficará grávida, e ela parirá um

filho, e será chamado seu nome Emmanuel."

(Isaías, VII, v. 14.)



"Porque a criança nos nasceu, o Filho nos foi

dado, e o poder foi posto sobre o seu ombro, e

se chamará seu nome o Admirável, o

Conselheiro, o Deus forte, o Poderoso, o Pai da

eternidade, o Príncipe da paz." (Isaías, IX, v. 5)



"Eis meu servidor, eu o sustentarei; é o meu

eleito, minha alma nele colocou sua afeição;

coloquei o meu Espírito sobre ele; ele exercerá a

justiça entre as nações.



"Não se retirará nunca, nem se precipitará nunca,

até que haja estabelecido a justiça sobre a Terra,

e os seres se detiverem à sua lei." (Isaias, XLII, v.

1 e 4.)



"Ele gozará do trabalho de sua alma, e nisso será

saciado; e meu servidor justo nisso justificará

vários, pelo conhecimento que terão dele e ele

mesmo levará suas iniqüidades." (Isaías, LIII, v.

11.)



"Rejubila-te extremamente, filha de Sião; lance

gritos de alegria, filha de Jerusalém! Eis: teu rei

virá a ti, justo e salvador humilde, e montará

sobre um asno, e sobre o potro de uma jumenta.

E proibirei os carros de guerra de Efraim, e os

cavalos de Jerusalém, e o arco do combate será

também proibido e teu rei falará de paz às

nações; e seu domínio se estenderá desde um

mar ao outro mar, e desde o rio até os confins da

Terra." (Zacarias, IX, v. 9, 10.)



"E ele (o Cristo) se manterá, e governará pela

força do Eterno, e com a magnificência do nome

do Eterno, seu Deus. E eles farão as pazes, e

agora será glorificado até os confins da Terra, e

será ele que fará a paz. (Miquéias, V, v. 4.)



A distinção entre Deus e seu enviado futuro está

caracterizada da maneira mais formal; Deus o

designa seu servidor, por conseqüência seu

subordinado; em suas palavras, nada há que

implique a idéia de igualdade de poder, nem de

consubstancialidade entre as duas pessoas. Deus

ter-se-ia enganado, e os homens vindos três

séculos após Jesus Cristo teriam visto mais justo

do que ele? Tal parece ser a sua pretensão.



VIII. O Verbo se fez carne



"No começo era o Verbo, e o Verbo estava com

Deus, e o Verbo era Deus. – Ele estava no começo

com Deus. – Todas as coisas foram feitas por ele;

e nada do que fez não fez sem ele. – Nele estava

a vida e a vida era a luz dos homens; – E a luz

brilhou nas trevas, e as trevas não a

compreenderam.



"Houve um homem enviado de Deus que se

chamava João. – Ele veio para servir de

testemunha, para dar testemunho à luz, a fim de

que todos cressem por ele. – Ele não era a luz,

mas veio para dar testemunho daquele que era a

luz.



"Aquela era a verdadeira luz que clareia todo

homem vindo neste mundo. – Ele estava no

mundo e o mundo nada fez por ele, e o mundo

não o conheceu. – Ele veio aos seus e os seus

não o receberam. – Mas deu a todos aqueles que

o receberam o poder de serem feitos filhos de

Deus, àqueles que creram em seu nome, que não

são nascidos do sangue nem da vontade da

carne, nem da vontade do homem, mas de Deus

mesmo.



"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós; e

vimos a sua glória, sua glória tal quanto o Filho

único deveria recebê-la do Pai; ele, digo eu,

habitou entre nós, cheio de graça e de verdade."

(João, cap. 1º, v. de 1 a 14.)



Esta passagem dos Evangelhos é a única que, à

primeira vista, parece encerrar implicitamente

uma idéia de identificação entre Deus e a pessoa

de Jesus; é também aquela sobre a qual se

estabeleceu, mais tarde, a controvérsia a este

respeito. Essa questão da divindade de Jesus não

chegou senão gradualmente; nasceu das

discussões levantadas a propósito das

interpretações dadas, por alguns, às palavras

Verbo e Filho. Não foi senão no quarto século

que ela foi adotada, em princípio, por uma parte

da Igreja. Esse dogma é, pois, o resultado de

uma decisão dos homens e não de uma revelação

divina.



Há de início a notar que, as palavras que citamos

mais acima, são de João, e não de Jesus, e que,

admitindo que não hajam sido alteradas, não

exprimem, em realidade, senão uma opinião

pessoal, uma indução onde se encontra o

misticismo habitual de sua linguagem; elas não

poderiam, pois, prevalecer contra as afirmações

reiteradas do próprio Jesus.



Mas, aceitando-as tais quais são, elas não

resolvem de nenhum modo a questão no sentido

da divindade, porque se aplicariam igualmente a

Jesus, criatura de Deus.



Com efeito, o Verbo é Deus, porque é a palavra

de Deus. Tendo Jesus recebido essa palavra

diretamente de Deus, com a missão de revelá-la

aos homens, assimilou-a; a palavra divina, da

qual estava penetrado, se encarnou nele; trouxe-

a ao nascer, e foi com razão que Jesus pôde

dizer: O Verbo se fez carne, e habitou entre nós.

Jesus pode, pois, estar encarregado de transmitir

a palavra de Deus sem ser Deus, ele mesmo,

como um embaixador transmite as palavras de

seu soberano, sem ser o soberano. Segundo o

dogma da divindade, é Deus que fala; na outra

hipótese, ele fala pela boca de seu enviado, o

que não rouba nada à autoridade de suas

palavras.



Mas quem autoriza essa suposição antes do que

outra? A única autoridade competente para

decidir a questão são as próprias palavras de

Jesus, quando disse: "Eu nunca falei de mim

mesmo, mas aquele que me enviou me

prescreveu , por seu mandamento o que devo

dizer; - minha doutrina não é a minha doutrina,

mas a doutrina daquele que me enviou, a palavra

que ouvistes não é, minha palavra, mas a de meu

Pai que me enviou." É impossível exprimir-se

com mais clareza e precisão.



A qualidade de Messias ou enviado, que lhe é

dada em todo o curso dos Evangelhos, implica

uma posição subordinada com relação àquele

que ordena; aquele que obedece não pode estar

igual àquele que manda. João caracteriza essa

posição secundária, e, por conseqüência,

estabelece a dualidade das pessoas quando

disse: E vimos a sua glória, tal quanto "o Filho

único deveria receber do Pai"; porque aquele que

recebe não pode ser igual àquele que dá, e

aquele que dá a glória não pode ser igual àquele

que a recebe. Se Jesus é Deus, possui a glória por

si mesmo e não a espera de ninguém; se Deus e

Jesus são um único ser sob dois nomes

diferentes, não poderia existir entre eles nem

supremacia, nem subordinação; desde então, que

não há paridade absoluta de posição, é que são

dois seres distintos.



A qualificação de Messias divino não implica a

igualdade entre o mandatário e o mandante,

como a do enviado real entre um rei e seu

representante.



Jesus era um messias divino pelo duplo motivo

que tinha a sua missão de Deus, e que as suas

perfeições o colocavam em relação direta com

Deus.



IX. Filho de Deus e filho do homem



O título de Filho de Deus, longe de implicar a

igualdade, é bem antes o indício de uma

submissão; ora, deve estar submetido a alguém e

não a si mesmo.



Para que Jesus fosse o igual absoluto de Deus,

seria necessário que fosse como ele, de toda a

eternidade, quer dizer, que fosse incriado; ora, o

dogma diz que Deus o engendrou de toda a

eternidade; mas quem disse engendrar diz criar;

que isso seja, ou não, de toda a eternidade, não

se é menos uma criatura, e, como tal,

subordinada a seu Criador; é a idéia implícita

encerrada na palavra Filho.



Jesus nasceu no tempo? De outro modo dito: foi

um tempo na eternidade, na eternidade passada,

onde ele não existia? Ou bem é co-Eterno com o

Pai? Tais são as sutilezas sobre as quais discutiu-

se durante os séculos. Sobre qual autoridade se

apóia a doutrina da co-eternidade passada ao

estado de dogma? Sobre a opinião dos homens

que a estabeleceram. Mas esses homens, por

qual autoridade fundaram a sua opinião? Isso

não é sobre a de Jesus, uma vez que se declara

subordinado; não é sobre a dos profetas que o

anunciam como o enviado e o servidor de Deus.

Em quais documentos desconhecidos, mais

autênticos do que os Evangelhos encontraram

essa doutrina? Aparentemente, na consciência e

na superioridade de suas próprias luzes.



Deixemos, pois, essas vãs discussões que não

poderiam terminar, e cuja solução mesmo, se

fora possível, não tornaria os homens melhores.

Digamos que Jesus é Filho de Deus, como todas

as criaturas; ele o chama seu Pai como nós

aprendemos a chamar nosso Pai. É o Filho bem-

amado de Deus porque, tendo chegado à

perfeição que o aproxima de Deus, possui toda a

sua confiança e todo o seu afeto; ele se diz, ele

mesmo, Filho único, não que seja o único ser

chegado a esse grau, mas porque só ele estava

predestinado a cumprir essa missão sobre a

Terra.



Se a qualificação de Filho de Deus parecia apoiar

a doutrina da divindade, não era, do mesmo

modo daquela do Filho do homem que Jesus se

deu em sua missão, e que fez o assunto de

muitos comentários.



Para melhor compreender-lhe o verdadeiro

sentido, é necessário remontar à Bíblia, onde

está dada por ele mesmo ao profeta Ezequiel.



"Tal foi a imagem da glória do Senhor que me foi

apresentada. Tendo, pois, visto essas coisas,

lancei meu rosto por terra: e ouvi uma voz que

me falava e disse: Filho do homem, tende-vos

sobre os vossos pés e eu falarei convosco. – E o

Espírito, tendo me falado da sorte, entrou em

mim, e me firmou sobre os meus pés e eu o ouvi

que me falava e me dizia: Filho do homem, eu

vos envio aos filhos de Israel, para um povo

apóstata que se retirou de mim. Violaram até

este dia, eles e seus pais, a aliança que fiz com

eles." (Ezequiel, cap. II, v. 1, 2, 3.)



"Filho do homem, eis que vos prepararam os

grilhões; a eles vos prenderão e deles não saireis

nunca." (Cap. III, v. 25.)



"O Senhor me dirigiu ainda a sua palavra e me

disse: – E vós, Filho do homem, eis o que disse o

Senhor Deus à terra de Israel: o fim vem; ele vem,

esse fim, sobre os quatro cantos desta terra."

(Cap. VII, v. 1, 2.)



"No décimo dia, do décimo mês, do nono ano, o

Senhor me dirigiu a palavra e me disse: – Filho do

homem, marcai bem esse dia que o rei de

Babilônia reuniu as sua tropas diante de

Jerusalém." (Cap. XXIV, v. 1, 2.)



"O Senhor me disse ainda estas palavras: – Filho

do homem, vou vos ferir com uma ferida e vos

arrebatar o que é mais agradável aos vossos

olhos; mas não fareis nunca lamentos fúnebres;

não chorareis nunca, e as lágrimas nunca

correrão em vosso rosto. – Suspirareis em

segredo, e não fareis luto nunca como foi feito

para os mortos; vossa coroa permanecerá ligada

sobre a vossa cabeça, e tereis vossos sapatos em

vossos pés: não cobrireis o rosto e não comereis

nunca a carne que se dá àqueles que estão no

luto. – Eu falei, pois, de manhã ao povo, e à noite

minha mulher morreu. No dia seguinte de

manhã, fiz o que Deus me ordenara. (Cap. XXIV,

v. de 15 a 18.)



"O Senhor me falou ainda e me disse: Filho do

homem, profetizai com respeito aos pastores de

Israel; profetizai e dizei aos pastores: Eis o que

disse o Senhor Deus: Infelizes os pastores de

Israel que apascentam a si mesmos: os pastores

não apascentam os seus rebanhos?" (Cap. XXXIV,

v. 1, 2.)



"Então eu ouvi que me falava, no interior da casa;

e o homem que estava próximo de mim me

disse: - Filho do homem, eis aqui o lugar de meu

trono: o lugar onde porei os meus pés, e onde

permanecerei para sempre no meio dos filhos de

Israel, e a casa de Israel não profanará mais meu

santo nome no futuro, nem eles, nem seus reis,

por suas idolatrias, pelos sepulcros de seus reis,

nem pelos seus nobres." (Cap. XLIII, v. 6, 7.)



"Porque Deus nunca ameaça como os homens, e

não entra nunca em furor como o Filho do

homem." (Judite, Cap. VIII, v. 15.)



É evidente que a qualificação de Filho do homem

quer dizer isto: que nasceu do homem, por

oposição àquilo que está fora da Humanidade. A

última citação, tirada do livro de Judite, não

deixa dúvida sobre o significado desta palavra,

empregada num sentido muito literal. Deus não

designou Ezequiel senão sob esse nome, sem

dúvida para lhe lembrar que, apesar do dom da

profecia que lhe foi concedido, com isso não

pertencia menos à Humanidade, e a fim de que

não se cresse de uma natureza excepcional.



Jesus se dá a si mesmo essa qualificação com

uma persistência notável, porque não é senão em

muito raras circunstâncias que se diz Filho de

Deus. Em sua boca não pode ter outro

significado que o de lembrar que, também ele,

pertence à Humanidade: por aí se assimila aos

profetas que o precederam e aos quais se

comparou fazendo alusão à sua morte, quando

disse: JERUSALÉM QUE MATA OS PROFETAS? A

insistência que coloca em se designar como filho

do homem, parece um protesto antecipado

contra a qualidade que prevê que dar-se-lhe-á

mais tarde, a fim de que seja bem constatado

que ela não saiu de sua boca.



É notável que, durante essa interminável

polêmica que apaixonou os homens durante uma

longa série de séculos, e dura ainda, que

acendeu as fogueiras e fez verter ondas de

sangue, disputou-se sobre uma abstração, a

natureza de Jesus, da qual se fez a pedra angular

do edifício, embora disso não haja falado; e que

se haja esquecido uma coisa, a de que o Cristo

disse ser toda a lei e os profetas: o amor de Deus

e do próximo, e a caridade, da qual fez a

condição expressa de salvação. Agravou-se

sobre a questão da afinidade de Jesus com Deus,

e se passou completamente sob silêncio as

virtudes que ele recomendou e das quais deu o

exemplo.



O próprio Deus, se apagou diante da exaltação

da personalidade do Cristo. No símbolo de

Nicéia, está dito simplesmente: Cremos em um

Deus único, etc.; mas como é esse Deus? De

nenhum modo se fez menção aos seus atributos

essenciais: a soberana vontade e a soberana

justiça. Essas palavras seriam a condenação dos

dogmas que consagram sua parcialidade para

com certas criaturas, sua inexorabilidade, seu

ciúme, sua cólera, seu espírito vingativo, dos

quais se autoriza para justificar as crueldades

cometidas em seu nome.



Se o símbolo de Nicéia, que se tornou o

fundamento da fé católica, estava segundo o

Espírito do Cristo, por que o anátema com que o

termina? Não é a prova de que é obra da paixão

dos homens? Aliás, a que se deve a sua adoção?

À pressão do imperador Constantino que disso

fizera uma questão mais política do que

religiosa. Sem a sua ordem, o Concílio de Nicéia

não ocorreria; sem a intimidação que exerceu, é

mais do que provável que o Arianismo o

arrebataria. Portanto, dependeu da autoridade

soberana de um homem que não pertencia à

Igreja, que reconheceu mais tarde o erro que

fizera politicamente, e que inutilmente procurou

retornar sobre os seus passos conciliando as

partes, para que não sejamos arianos em lugar

de sermos católicos, e para que o Arianismo não

fosse hoje a ortodoxia, e o catolicismo a heresia.



Depois de dezoito séculos de lutas e de disputas

vãs, durante os quais se pôs completamente de

lado a parte mais essencial do ensino do Cristo, a

única que poderia assegurar a paz da

Humanidade, se está ainda nessas discussões

estéreis que não levaram senão a perturbações,

engendraram a incredulidade, e cujo objeto não

satisfaz mais à razão.



Há, hoje, uma tendência manifesta da opinião

geral de retornar às idéias fundamentais da

primitiva Igreja, e à parte moral do ensinamento

do Cristo, porque é a única que pode tornar os

homens melhores. Aquela é clara, positiva, e não

pode dar lugar a nenhuma controvérsia. Se a

Igreja houvesse seguido este caminho desde o

princípio, seria hoje onipotente em lugar de estar

em declínio; teria reunido a imensa maioria dos

homens em lugar de estar despedaçada pelas

facções.



Quando os homens caminharem sob essa

bandeira, se estenderão mãos fraternas, em lugar

de se lançarem anátemas e maldições, por

questões que, na maioria do tempo, não

compreendem.



Essa tendência da opinião é o sinal de que

chegou o momento para levar a questão para o

seu verdadeiro terreno.



Livro: Obras Póstumas




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