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Controle Universal dos Espíritos

Autor: Allan Kardec

Já abordamos esta questão em nosso
ultimo número, a propósito de um
artigo especial – da perfeição dos
seres criados. Mas ela é de tal
importância, tem conseqüências de tal
magnitude para o futuro do
Espiritismo, que julgamos dever tratá-
lo de modo mais completo.

Se a Doutrina Espírita fosse uma
concepção puramente humana, não teria
como garantia senão as luzes de quem a
tivesse concebida. Ora, ninguém aqui
poderia ter a pretensão fundada de
possuir, ele só, a verdade absoluta.
Se os Espíritos que a revelaram se
tivessem manifestado a um só homem,
nada garantiria a sua origem, pois
seria preciso crer sob palavra naquele
que dissesse ter recebido seu ensino.
Admitindo de sua parte uma perfeita
sinceridade, ao menos poderia
convencer as pessoas de seu ambiente.
Poderia ter sectários, mas não
conseguiria jamais atrair todo o
mundo.

Quis Deus que a nova revelação
chegasse aos homens por uma via mais
rápida e mais autêntica. Eis por que
encarregou os Espíritos de a levar de
um a outro polo, manifestando-se por
toda parte, sem dar a ninguém o
privilégio exclusivo de ouvir a sua
palavra. Um homem pode ser enganado,
pode mesmo enganar-se. Assim não
poderia ser quando milhões de homens
vêem e ouvem a mesma coisa: é uma
garantia para cada um e para todos.
Aliás pode fazer-se um homem
desaparecer, mas não desaparecem as
massas. Podem queimar-se os livros,
mas não os Espíritos. Ora, se
queimassem todos os livros, a fonte da
doutrina não seria emudecida, por isso
que não está na terra: surge por toda
a parte e cada um pode aproveitá-la.
Em falta de homens para a espalhar,
haverá sempre Espíritos que atingem
todo o mundo e ninguém os pode
atingir.

Na realidade, são os próprios
Espíritos que fazem a propaganda,
auxiliados por inumeráveis médiuns que
suscitam por todos os lados. Se
tivessem tido um intérprete único, por
mais favorecido que fosse, o
Espiritismo seria apenas conhecido.
Esse mesmo intérprete, fosse de que
classe fosse, teria sido objeto de
prevenções por parte de muita gente.
Nem todas as nações o teriam aceitado,
ao passo que os Espíritos se comunicam
por toda a parte, a todos os povos, a
todas as seitas e partidos, sendo
aceitos por todos. O Espiritismo não
tem nacionalidade. Está por fora de
todos os cultos particulares, não é
imposto por nenhuma classe da
sociedade, pois cada um pode receber
instruções de parentes e amigos de
além túmulo. Era preciso que assim
fosse, para que pudesse chamar todos
os homens à fraternidade. Se, não
tivesse colocado em terreno neutro,
teria mantido dissenções, em vez de as
apaziguar.

Essa universalidade do ensino dos
Espíritos constitui a força do
Espiritismo. Aí, também, está a causa
de sua propagação tão rápida. Ao passo
que a voz de um só homem, mesmo com o
auxílio da imprensa, teria levado
séculos antes de chegar a todos os
ouvidos, eis que milhares de vozes se
fazem ouvir simultaneamente em todos
os pontos da terra, para proclamar os
mesmos princípios, e os transmitir aos
mais ignorantes, como aos mais sábios,
a fim de que ninguém fique deserdado.
É uma vantagem de que não gozou
nenhuma das doutrinas até hoje
aparecidas. Se, pois, o Espiritismo é
uma verdade, nem teme a má vontade dos
homens, nem as revoluções morais, nem
os desmoronamentos físicos do globo,
porque nenhuma dessas coisas podem
atingir os Espíritos.

Mas se não é a única vantagem
resultante desta posição excepcional,
o Espiritismo aí encontra uma
onipotente garantia contra os cismas
que poderiam suscitar, pela ambição de
uns, ou pelas contradições de certos
Espíritas. Seguramente essas
contradições são com escolho, mas que
leva em si o remédio ao lado do mal.

Sabe-se que os Espíritos, por força da
diferença existente em suas
capacidades, estão longe de estar
individualmente na posse de toda a
verdade; que nem a todos é dado
penetrar certos mistérios; que seu
saber é proporcional à sua depuração;
que os Espíritos vulgares não sabem
mais que os homens e até menos que
certos homens; que entre eles, como
entre estes, há presunçosos e pseudo-
sábios, que crêem saber o que não
sabem, sistemáticos que tomam suas
verdades; enfim, que os Espíritos de
ordem mais elevada, os que estão
completamente desmaterializados, são
os únicos despojados das idéias e
preconceitos terrenos. Mas sabe-se,
também, que os Espíritos enganadores
não tem escrúpulo em esconder-se sob
nomes de empréstimo, para fazerem
aceitas as suas utopias. Disso resulta
que, para tudo quanto esteja fora do
ensino exclusivamente moral, as
revelações que cada um pode obter tem
um caráter individual sem
autenticidade. Que devem ser
consideradas como opinião pessoais de
tal ou qual Espírito, e que seria
imprudente aceitá-las e promulgá-las
levianamente como verdades absolutas.

O primeiro controle é, sem sombra de
dúvida, o da razão, à qual é preciso
submeter, sem exceção, tudo quanto vem
dos Espíritos. Toda teoria em
manifesta contradição com o bom senso,
com uma lógica rigorosa e com os dados
positivos que se possuem, por mais
respeitável que seja a sua assinatura,
deve ser rejeitada. Mas esse controle
é incompleto em muitos casos, por
força da insuficiência das luzes de
certas pessoas e da tendência de
muitos a tomar seu próprio julgamento
por único árbitro da verdade. Em tal
caso, que fazem os homens que não tem
absoluta confiança em si próprios?
Seguem a opinião do maior número e a
opinião da maioria é o seu guia. Assim
deve ser a respeito do ensino dos
Espíritos, que nos fornecem, eles
próprios, os seus meios.

A concordância no ensino dos Espíritos
é, pois, o melhor controle, mas ainda
é preciso que ocorra em certas
condições. A menos segura de todas é
quando um médium interroga, ele
próprio, a vários Espíritos sobre um
ponto duvidoso. É evidente que se
estiver sob o império de uma obsessão
e se tratar com um Espírito enganador,
este lhe pode dizer a mesma coisa com
nomes diversos. Também não há garantia
suficiente na conformidade obtida pelo
médiuns de um mesmo centro, pois podem
sofrer a mesma influência. A única
séria garantia está na concordância
que exista entre as revelações
espontâneas, feitas por grande número
de médiuns estranhos uns aos outros e
em diversas regiões. Compreende-se que
aqui não se trata de comunicações
relativas a interesses secundários,
mas do que se liga aos princípios da
mesmos da doutrina.

Prova a experiência que quando um
princípio novo deve ter a sua solução,
é ensinado espontaneamente em diversos
ponto ao mesmo tempo e de maneira,
senão na forma, ao menos no fundo. Se,
pois, a um Espírito agrada formular um
sistema excêntrico, baseado em suas
próprias idéias e fora da verdade,
podemos estar certos que o sistema
ficará circunscrito e cairá ante a
humanidade das instruções dadas por
toda a parte, como já houve vários
exemplos. É essa unanimidade que faz
caírem todos os sistemas parciais,
nascidos na origem do Espiritismo,
quando cada um explicava os fenômenos
à sua maneira e antes que fossem
conhecidas as leis que regem as
relações entre o mundo visível e o
invisível.

Tal a base em que nos apoiamos quando
formulamos um princípio da doutrina.
Não o damos como verdadeiro por ser
conforme as nossas idéias; não nos
colocamos absolutamente como árbitro
supremo da verdade e a ninguém
dizemos: "Crede nisto porque o
dizemos". Nossa opinião, aos nossos
olhos, não passa de opinião pessoal,
que pode ser justa ou falsa, desde que
não somos mais infalível que qualquer
outro. Também não é porque um
princípio nos é ensinado que para nós
é a verdade, mas porque recebeu a
sanção da concordância.

Esse controle universal é uma garantia
para a futura unidade do Espiritismo e
anulará todas as teorias
contraditórias. É aí que, no futuro,
será procurado o critério da verdade.
O que fez o sucesso da doutrina
formulada no Livro dos Espíritos e no
Livro dos Médiuns é que por toda parte
cada um pode receber dos Espíritos,
diretamente, a confirmação do que eles
encerram. Se, de todos os lados, os
Espíritos tivessem vindo contradize-
los, de há muito esses livros teriam
tido a sorte de todas as concepções
fantásticas. O próprio apoio da
imprensa não os teria salvo do
naufrágio, ao passo que, privados
desse apoio, nem por isto deixaram de
fazer um caminho rápido, porque
tiveram o dos Espíritos, cuja boa
vontade compensou com sobra a má
vontade dos homens. Assim será com
todas as idéias emanadas dos Espíritos
ou dos homens que não puderem suportar
a prova do controle, cujo poder
ninguém poderá contestar.

Suponhamos, pois, que apraza a certos
Espíritos ditar, sob um título
qualquer, um livro em sentido
contrário. Suponhamos mesmo que, numa
intenção hostil, e visando
desacreditar a doutrina, a
malevolência suscitasse comunicações
apócrifas. Que influência poderiam ter
esses escritos, se são desmentidos de
todos os lados pelos Espíritos? É da
adesão destes últimos que seria
necessário assegurar-se, antes de
lançar um sistema em seu nome. Do
sistema de um só ao de todos há uma
distância da unidade ao infinito. Que
podem mesmo todos os argumentos dos
detratores sobre a opinião das massas,
quando milhão de vozes amigas,
partidas do espaço, vem de todos os
pontos do globo e no seio de cada
família, os bater na brecha? Sob esse
ponto a experiência já não confirmou a
teoria? Em que se tornaram todas as
publicações que se diziam vir
aniquilar o Espiritismo? Qual a que
lhe deteve a marcha? Até hoje a
questão não tinha sido encarada sob
este ponto de vista, sem dúvida um dos
mais sérios. Cada um contou consigo,
mas não com os Espíritos.

Ressalta de tudo isto uma verdade
capital: é que quem quer que quisesse
atravessar-se contra a corrente das
idéias estabelecidas e sancionadas,
poderia bem causar uma pequena
perturbação local e momentânea, mas
nunca dominar o conjunto, mesmo no
presente e, ainda menos, no futuro.

Ressalta, ainda, que as instruções
dadas pelos Espíritos sobre pontos da
doutrina ainda não elucidados, não
poderia constituir lei, enquanto
ficassem isoladas. Consequentemente,
não devem ser aceitas senão com todas
as reservas e a título de informação.

Daí a necessidade de dar à sua
publicação a maior prudência. E, no
caso se julgasse dever publicá-las,
importa não as apresentar senão como
opiniões individuais, mais ou menos
prováveis, mas tendo, em todo o caso,
necessidade de confirmação. É essa
confirmação que se deve esperar, antes
de apresentar um princípio como
verdade absoluta, se não quiser ser
acusado de leviandade ou de
irrefletida credulidade.

Em suas revelações, os Espíritos
superiores procedem com extrema
sabedoria. Só gradativamente abordam
as grandes questões da doutrina, à
medida que a inteligência se torna
apta a compreender verdades de uma
ordem mais elevada, e que
circunstâncias propícias para a
emissão de uma idéia nova. Eis porque,
desde o começo, não disseram tudo e
ainda hoje não o disseram, jamais
cedendo à impaciência de criaturas
muito apressadas, que querem colher os
frutos antes de sua maturidade. Seria,
pois, supérfluo querer precipitar o
tempo marcado a cada coisa pela
Providência, porque então os Espíritos
realmente sérios positivamente recusam
o seu concurso; mas os Espíritos
levianos, pouco se incomodando com a
verdade, a tudo respondem. É por isso
que, sobre todas as questões
prematuras, sempre há respostas
contraditórias.

Os princípios acima não são fruto de
uma teoria pessoal, mas a conseqüência
forçosa das condições em que se
manifestam os Espíritos. É evidente
que se um Espírito diz uma coisa de um
lado, enquanto milhões dizem o
contrário alhures, a presunção de
verdade não pode estar com aquele que
é o único ou mais ou menos de sua
opinião. Ora, pretender ser o único a
ter razão contra todos seria tão
ilógico da parte de um Espírito quanto
da parte de um homem. Os Espíritos
verdadeiramente sábios, se não se
sentem suficientemente esclarecidos
sobre uma questão, jamais a resolvem
de maneira absoluta. Declaram não a
tratar senão de seu ponto de vista, e
aconselham mesmo a esperar-se a sua
confirmação.

Por mais bela, justa e grande que seja
uma idéia, é impossível que, desde o
começo, alie todas as opiniões. Os
conflitos daí resultantes são
conseqüência inevitável do movimento
que se opera. São mesmo necessários
para melhor destacar a verdade, e é
útil que ocorram no começo, para que
as idéias falsas sejam mais
prontamente desgastadas. Os espíritas
que concebessem alguns temores devem,
pois, ficar perfeitamente seguros.
Todas as pretensões isoladas cairão
pela força das coisas, ante o grande e
poderoso critérium de controle
universal. Não é à opinião de um homem
que se aliarão, é a voz unânime dos
Espíritos. Não é um homem, nem nós
mais que outro, que fundará a
ortodoxia espírita; também não é um
Espírito vindo impor-se a quem quer
que seja: é a universalidade dos
Espíritos, comunicando-se em toda a
terra, por ordem de Deus. Aí está o
caráter essencial da doutrina
espírita. Aí está a sua força e a sua
autoridade. Deus quis que a sua lei se
assentasse numa base inabalável, e,
por isso, não a assentou sobre a
cabeça frágil de um só.

É perante esse poderoso areópago, que
nem conhece grupelhos, nem as
rivalidades invejosas, nem seitas ou
nações, que virão quebrar-se todas as
oposições, todas as ambições, todas as
pretensões à supremacia individual;
que nós mesmos nos quebraríamos se
quiséssemos substituir os seus
soberanos desígnios por nossas
próprias idéias; ele é o único que
resolverá todas as questões
litigiosas, que fará calarem-se as
dissidências e dará ou não razão a
quem de direito. Ante esse imponente
acordo de todas as vozes do céu, que
pode a opinião de um homem ou de um
Espírito? Menos que a gota d’água que
se perde no oceano, menos que a voz da
criança, abafada pela tempestade.

A opinião universal, eis, então, o
juiz supremo, o que se pronuncia em
última instância. Ela se forma de
todas as opiniões individuais. Se uma
delas for verdadeira, terá apenas o
seu peso relativo na balança. Se for
falsa, não pode triunfar sobre todas
as outras. Neste imenso concurso os
indivíduos se apagam, e aí está um
novo cheque para o orgulho humano.

Esse conjunto harmonioso já se
desenha. Ora, este século não passará
sem que resplandeça em todo o seu
brilho, de maneira a fixar todas as
incertezas. Porque, daqui para a
frente vozes poderosas terão recebido
a missão de se fazer ouvir para aliar
os homens sob a mesma bandeira, desde
que o campo seja suficientemente
trabalhado. Enquanto espera, aquele
que flutuasse entre dois sistemas
opostos, pode observar em que sentido
se forma a opinião geral; é o índice
certo do sentido no qual se pronuncia
a maioria dos Espíritos sobre os
diversos pontos em que se comunicam. É
um sinal não menos certo de qual dos
dois sistemas triunfará.

Revista Espírita, abril de 1861.




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